Decagrama dramático
E lá do alto Da Arquibancada, o Saci-bola e um de seus amores, Iara Mãe D’água, observam o que acontece no globinho azul, mais precisamente na vila de São Paulo de Piratininga. Não demora muito e passam a enumerar o que vêem e ouvem:
1- NÃO PODE meter a bola no meio das pernas
2- NÃO PODE usar camisinha
3- NÃO PODE dar chapéu
4- NÃO PODE se relacionar com alguém do mesmo sexo
5- NÃO PODE fazer gol de mão
6- NÃO PODE "ficar"
7- NÃO PODE xingar a mãe do juiz
8- NÃO PODE optar pelo aborto
9- NÃO PODE driblar
10- NÃO PODE um casal separar
- Isto chega onde, Saci? - pergunta Iara, já meio confusa com tantos números.
- Que o time PODE SIM perder torcedores fiéis, ré, ré, ré.
Escrito por Saci-bola às 16h29
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Bento-Bush-Fora rush
- Contra a tática do tranca-rua só mesmo um arrastão abre-alas Bento-Bush. Não tem outro jeito! – receita o experiente Zezé Travessão para os times que querem alguma coisa na noite desta quarta-feira, seja na Copa do Brasil ou na Libertadores.
- Mas que baita confusão é esta, zeu Zezé, o que tem a ver enfrentar uma retranca com um goleiro e mais dez atrás com o papa e o presidente estadunidense? Tá variando, é? – indaga Lili Tô na Área, depois de dar uma golada numa tubaína.
- Meu amor, você não viu o que aconteceu e o que está acontecendo na Vila de São Paulo de Piratininga? Seja com Bento ou Bush, a cidade fica parecendo bairro afastado e tranqüilo de cidade do Interior com PIB de país multimilionário!
- O quê? Com dez milhões de habitantes, nem a pau!
- De repente, o lugar fica seguro, os transportes públicos funcionam direitinho, o trânsito anda igual montanha-russa, escolas e entidades visitadas ficam parecendo pedaços do céu na terra, as refeições são decentes e até os professores ganham um aspecto de estarem recebendo um contracheque de marajá!
- Ué, e por que a coisa não fica assim sempre? Já que fica continua!
- Aí é que está o litígio, neném! Quem pode explicar esse entrevero é o povo lá daquele lugarzinho. Ainda bem que aqui em Vila Palmares não tem esse negócio não, né?
Zezé e Lili passam mais alguns minutos tentando descobrir o porquê de tanta diferença entre o dia-a-dia e dos dias em que um visitante aparece.
E lá do alto Da Arquibancada do estádio de Canudos, em Vila Palmares, o Saci-bola, que adora fazer uma visitinha de vez em quando, dá a receita: "uhm, então a cidade fica melhor quando algum visitante aparece, né? Tá bom, manda eles ficarem por lá mais um tempão, será que tudo não passa a funcionar de vez? Ré, ré, ré.
Escrito por Saci-bola às 18h09
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Pênalti pra São Bruno
E já começam os preparativos para a quarta-feira gorda, ou melhor, desesperada. Quem, no domingo, foi campeão poderá ser o pior time do mundo se for eliminado, cortado, alijado, defenestrado, mesmo, da Libertadores e mandado para o nada mais absoluto do espaço.
O caos total pode se abater no quase eterno fogo-de-santelmo que é o time do Clube de Regatas do Flamengo. Campeão anteontem, talvez desclassificado amanhã.
- Ah, aí já apelaram pra São Judas Tadeu, o santo padroeiro do time e patrono das causas desesperadas ou já perdidas. É, mais uma vez, vão ter de orar pra ver se melhora – lembra dona Naná Pedalada, enquanto prende o longo cabelo louro e escolhe umas velas coloridas – será pra acender amanhã, nunca se sabe!.
- Péra aí, mas e o sacerdote que benzeu a camisa rubro-preta do goleiro Bruno, o respeitável Valdir Lima, ele é o quê? – pergunta Afonsinho Onze Jardas, com todos os pêlos de dúvida de sua pouca barba.
- Ora, rapazinho, ele é padre! – friza seu Mané Enceradeira.
- Sim, mas na hora do aperto, é Flamengo, Vitória, Inter ou o quê?
- Que pergunta é esta? O padre é de deus!
- Ele não confessou que torce pro Mengo?
- Não.
- Então é Vasco, ele é Vasco! – decifrou Afonsinho, prevendo o não-milagre dos quatros gols de diferença do Mengão contra o uruguaio Defensor.
E lá do alto Da Arquibancada, o Saci-bola, com a calma de um frei franciscano, dá a receita para a nação preta-e-vermelha: é uma questão de experiência, se não for por quatro, serão feitos três gols a zero, daí, o Bruno garante nos pênaltis, moleza, tá tudo dominado, ré, ré, ré.
Escrito por Saci-bola às 17h37
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Sensação divina
- Hoje acordei com um gosto doce na boca, no corpo inteiro, apesar de algumas coisas amargas que tive de encarar nos últimos dias – confessa Lili Tô na Área, cheia de vida.
- Engraçado, Lili. Hoje acordei mais feliz do que de costume. Mesmo não estando no verão, que adoro, o outono me trouxe uma sensação de bem-estar permanente, uma coisa assim pra lá de esquisita, mas muito boa – emenda Afonsinho Onze Jardas.
E tem sido assim durante todo o dia. Cada um que chega na sala de bloblobló (ex-inteligência), nos fundos falsos da mercearia do Mané Enceradeira, não se contém de felicidade.
O próprio Mané, num gesto comum de generosidade, distribuiu pãezinhos para toda a freguesia. Há algo de misterioso e positivo no ar.
- Não sei direito o que tá acontecendo, mas que tá, tá. É um negócio de clima de fraternidade, humildade, sorriso no rosto, boas palavras. Cada um vestindo a melhor camisa que se identifica com seu astral. Eu mesmo já botei uma todinha bicolor, listrada, coisa chique – se valoriza seu Zezé Travessão.
- Pra falar a verdade, tem alguma coisa de santificada no ar. Um quê de milagre, que não se explica, nem se quer explicar, tá lindo, mandei até fazer esta camisa tricolor pra celebrar este momento - revela seu Pratinha.
E lá do alto Da Arquibancada, o Saci-bola, que está alegre como pintinho em titica, dá o veredicto: tem gente mais feliz do que católico em dia de visita de papa, de namorados na primeira vez e de ex-analfabeto que escreve o nome. Ah, como é bom ser campeão! Ré, ré, ré.
Escrito por Saci-bola às 16h38
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