Noite celeste
Quarta-feira à noite. Grandes decisões sendo tomadas em Vila Palmares.
Dona Naná Pedalada experimenta uma nova roupa íntima, preta, enquanto ouve a narração do jogo do Corinthians contra o Botafogo. E que fogo!
- Dizem que vai estrear com seu Zezé Travessão! – comenta o Curupira, sempre muito curioso sobre a vida pública e especialmente privada dos dois amigos.
É bem noitinha. Seu Pratinha, batucando na frente do computador, tenta desenvolver uma nova técnica de produzir, cada vez mais, pastas e malas pretas ao menor custo.
- Tá tudo globalizado! - sentencia o Boitatá, profundo conhecedor dos meandros da macroeconomia neoliberal. No ar, e no vídeo, o jogo do Vasco contra o Sport.
É uma escuridão de história em quadrinhos. Lili Tô na Área está ocupadíssima com algumas partes do corpo, que um dia foram chamadas de pudendas, de um amigo e de uma amiga, ao mesmo tempo que os três estão se ocupando mutuamente. E na tela do supertelevisor com imagem esticada, desses moderninhos, rola um Boca e Fluminense.
- Ah, com essa Lili não tem essa de ou sexo ou futebol: tudo pode ser ao mesmo tempo djá! - garante a Iara Mãe D'água, com água na boca.
E lá do alto Da Arquibancada o Saci-bola, que entende tudo de astronomia, observa dois corpos celestes flamejantes.
Um, é uma bola, chutada lá de São Januário, por cima do travessão, que vai ao encontro do outro, uma estrela branca, linda, só que solitária.
Há um choque e um estrondo galáticos. Cachoeiras de água escorrem pelo espaço. De um lado, gomos do que foi a bola. De outro, pedaços reluzentes da estrela. Os dois, ali, perdidos no espaço.
Escrito por Saci-bola às 00h13
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Instantâneo permanente
- São alguns segundos que valem uma vida! – filosofa seu Zezé Travessão, lembrando do dia em que fez um golaço, de voleio, na final do campeonato varzeano de Vila Palmares: “tá certo que faz um tempão, mas é como se ainda nem tivesse acontecido.”
- Ah, fiquei assim quando reduzimos a jornada de trabalho de quarenta para 30 horas por semana. Olhava, olhava, olhava e tava todo mundo comemorando, mas via nada, só tava alegre pra mais de metro – rememora Afonsinho Onze Jardas quando os trabalhadores deram um salto adiante nas relações de trabalho com o seu Pratinha, o dono da fábrica de pastas pretas da Vila Palmares.
- Eu não sabia se chorava, saía correndo ou parava na primeira esquina pra tomar uma, não, duas doses. Mas o certo é que travei nas quatro. Aquele anel de prata, naquele momento, era um troféu, não agüentava mais aquele cara e ele não devolvia o presente que só valia enquanto a gente estivesse namorando. Até que ele devolveu e o anel virou cachaça – explica, feliz, Lili Tô Na Área, ao mesmo tempo em que coloca a etiqueta da sua calcinha para dentro da própria peça de vestuário.
E lá do alto Da Arquibancada, o Saci-bola, que vira-e-mexe quase renasce de tanta catatonia, invade o que se passa com Renato Gaúcho, ali, no gramado do ensurdecedor Maracanã, após o Tricolor das Laranjeiras ter conquistado uma das vitórias mais importantes da sua história, contra o homônimo tricolor, só que paulista.
- “Minhas pernas não são mais minhas, nem braços e sei lá o quê, pra falar a verdade, há só um par de braços e pernas, uma só cabeça, tá tudo aqui, neste lugar. Mas, agora, coração, também só tem um, mas esse é o do Washington, de ninguém mais” – sente Renato, devidamente psicografado pelo Saci-bola, que, estranhamente, também olha para o nada e vive de rir, ré, ré, ré.
Escrito por Saci-bola às 10h36
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Para poucos
- Gente saindo pelo ladrão! – grita seu Zezé Travessão.
- Forrado de gente! – defende dona Naná Pedalada.
- Mais entulhado que lata de sardinha! – compara seu Mané Enceradeira, já manipulando um palito de dente para tirar um pedacinho da calabresa que se instalou nos dentes da frente.
E assim vai, na sala de bloblobló da mercearia do Mané, o campeonato de expressões que mostrem o quanto um estádio de futebol fica cheio em dias de jogos importantes.
- Craudiado, tava craudiado! – disputa a sempre mais que vigorosa Lili tô na Área para, em seguida, recolocar a alcinha do sutiã vermelho no ombro.
- Entupidaço! – lança Afonsinho Onze Jardas.
Lá do alto Da Arquibancada do estádio de Canudos, em Vila Palmares, o Saci-bola, que gosta demais de um aperto, lembra que, hoje em dia, só o saco do torcedor é que enche: “quarenta paus de ingresso mais barato? É ruim, ein?”
Já vendo que a concorrência estava cada vez mais acirrada e os jurados mais do que coçando a cabeça, Diguinho, o japonesinho camicase dispara: “mais apertado que cuzinho de bunda mole fugindo de fantasma!”
De olhos arregalados, mas rindo como sempre, o Saci-bola sai rodopiando pelo ar.
Escrito por Saci-bola às 19h19
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